Talvez fosse o fato dela ter sido criada numa época nebulosa da carreira dos Beatles - o bastante para impressionar uma garota de oito anos de idade como eu, naquela época de descoberta.
Talvez fosse porque, décadas depois, eu via meu querido McCartney desperdiçando valioso tempo de seus shows com aqueles interminávels "na na na na", quando podia muito bem estar nos deleitando com pérolas insuspeitas como "Hold me Tight" ou "Peace in the neighbourhood".
O fato é que Hey Jude nunca me desceu pela goela -- até semana passada.
É óbvio que eu conhecia essa história -- já a tinha ouvido e lido pelo menos vinte vezes -- mas de repente tudo fez sentido na minha cabeça. A história em questão é um fato que Paul McCartney relata da época em que Hey Jude estava sendo composta. Tendo criado boa parte da letra e melodia enquanto dirigia para a casa da recém-ex-mulher de John Lennon, como uma forma de apaziguar o ânimo de Julian, filho do casal, ele resolveu sentar ao piano e mostrar ao parceiro de composição o que já tinha pronto.
Quando ele chegou na parte que diz "The movement you need is on your shoulder", no entanto, ele olhou de esguelha para Lennon e num movimento rápido de olhos deu a entender que sabia que aquela frase precisava ser melhorada -- tinha sido colocada ali apenas para encher o espaço vazio, de forma que fosse substituída tão logo uma coisa melhor lhe viesse à cabeça. A reação de John foi inesperada: "Mas essa é a melhor parte da música!..."
John disse que entendeu perfeitamente a analogia. No meio de uma tempestade emocional, o movimento de que a criança precisava repousava bem em cima de seu próprio ombro.
McCartney deixou a frase lá, ainda que na mesma estrofe, duas linhas antes, a palavra shoulder já tivesse sido usada. Ele costuma dizer que todas as vezes que chega nessa parte da canção, lembra de John e sua contribuição.
Written by Charlie Chaplin Composed by Paul McCartney
Laugh when your eyes are burning Smile when your heart is filled with pain Sigh as you brush away your sorrow Make a vow that it's not gonna happen again
It's not right in one life too much rain
You know the wheels keep turning Why do the tears run down your face? We used to hide away our feelings But for now tell yourself it won't happen again
It's not right in one life too much rain
It's too much for anyone Too hard for anyone Who wants a happy and peaceful life You've gotta learn to laugh
Smile when you're spinning round and round Sigh as you think about tomorrow Make a vow that your gonna be happy again
It's all right in your life no more rain
It's too much for anyone Too hard for anyone Who wants a happy and peaceful life You've gotta learn to laugh
Aquela menina nunca tinha experimentado uma sensação tão poderosa. Tão potente e, ao mesmo tempo, tão libertadora. Com sete anos de idade, o impulso irrefreável de rir, chorar e dançar a mesmo tempo a apavorava tanto quanto a fascinava. Tudo por causa de uma música.
Em 2009 voltei de fato a estudar. Fiz a viagem de lua-de-mel sonhada havia anos, e cortei meu cabelo curto tantas vezes quanto desejei que eles ficassem logo longos. Presenciei a chegada de um milagre à vida de uma amiga querida, e dei as boas-vindas a meus primeiros cabelos brancos. No ano da minha volta de saturno, perdi a razão da minha vida e simplesmente me deixei esvaziar.
Então qual a surpresa quando, nos últimos suspiros do ano, percebi ter recomeçado a construir minha alma, tijolo por tijolo, justamente com o estofo do qual originalmente eu era feita?
Quando eu era criança, um vinil com capa preta e branca me apresentou ao mundo fantástico dos Beatles. O album era With The Beatles, e minha música preferida era Hold me Tight. A melodia contagiante e o ritmo das palmas sempre pareceram um mantra para mim, impelindo-me a outros estágios de consciência. Da mesma forma como It won't be long me traz a recordação onírica de uma longa viagem de ônibus pela cidade, num dia de chuva intensa. Uma alameda ladeada por altas árvores, evocando libertação e familiaridade. Basta dizer que aos nove anos eu economizava dinheiro com o único fim de comprar mais vinis dos meus amados cabeludos.
É com eles que vou passar a virada do ano -- me reconstruindo, segundo após segundo, com a energia fantástica que emana de cada uma de suas obras. Refazendo a base de minha personalidade para encarar novamente em alguns dias o mundo que me aguarda --- o mundo que não parou enquanto eu morria, nem está interessado em conhecer minha dor.
Espero estar suficientemente preparada.
Que 2010 seja o ano da (re)descoberta. Sejamos felizes e infelizes, mas sejamos nós mesmos -- plenamente conscientes & true to ourselves.
Help, I need somebody, Help, not just anybody, Help, you know I need someone, help.
When I was younger, so much younger than today, I never needed anybody's help in any way. But now these days are gone, I'm not so self assured, Now I find I've changed my mind and opened up the doors.
Help me if you can, I'm feeling down And I do appreciate you being round. Help me, get my feet back on the ground, Won't you please, please help me?
And now my life has changed in oh so many ways, My independence seems to vanish in the haze. But every now and then I feel so insecure, I know that I just need you like I've never done before.
Help me if you can, I'm feeling down And I do appreciate you being round. Help me, get my feet back on the ground, Won't you please, please help me.
When I was younger, so much younger than today, I never needed anybody's help in any way. But now these days are gone, I'm not so self assured, Now I find I've changed my mind and opened up the doors.
Help me if you can, I'm feeling down And I do appreciate you being round. Help me, get my feet back on the ground, Won't you please, please help me, help me, help me, oh.
27 de dezembro de 2009
Para estar junto não é preciso estar perto, e sim do lado de dentro.
How happy is the blameless vestal's lot! The world forgetting, by the world forgot. Eternal sunshine of the spotless mind! Each pray'r accepted, and each wish resign'd; Labour and rest, that equal periods keep; "Obedient slumbers that can wake and weep;" Desires compos'd, affections ever ev'n, Tears that delight, and sighs that waft to Heav'n. Grace shines around her with serenest beams, And whisp'ring angels prompt her golden dreams.
Por essas e outras é que gosto tanto do estilo de Stephenie Meyer: ela consegue ser tão melodramática quanto eu.
"Eu parecia uma lua perdida -- meu planeta destruído em algum cenário desolado de cinema-catástrofe -- que continuava, apesar de tudo, a rodar numa órbita muito estreita pelo espaço vazio que ficou, ignorando as leis da gravidade."
Bella Swan, em Lua Nova.
Para combinar, a trilha sonora do dia - Satellite Heart, de Anya Marina.
Satellite Heart
So Pretty, So Smart Such A Waste Of A Young Heart What a Pitty What a Sham What's The Matter With You Man?
Don't You See What's Wrong Can't You Get It Right? Outta Mind, And Outta Sight Call On All Your Girls Don't Forget The Boys Put a Lid On All That Noise
I'm A Satellite Heart Lost In The Dark I'm Spun Out So Far, You Stop I Start But I'll Be True To You
I Hear Your Living Out Of State Runnin' In A Whole New Scene You Know I Haven't Slept In Weeks You're The Only Thing I See
I'm A Satellite Heart Lost In The Dark I'm Spun Out So Far, You Stop I Start But I'll Be True To You
Só existiam duas explicações para o que estava acontecendo. E uma delas envolvia uma dose massiva de ironia por parte das forças divinas -- então, para não blasfemar, preferi considerar apenas a seguda opção.
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À beira dos trinta anos, descobri ter uma resposta pronta, imediata -- e sincera -- para a clássica pergunta "qual seu maior medo?". Estupidamente, se trata de um fato do qual é simplesmente impossível fugir: a morte dos meus pais. Tendo isso em mente, só era possível admitir que fazia parte da minha missão neste mundo adentrar três vezes ao dia uma asséptica sala de UTI para dar de cara com o corpo inerte do meu pai -- a esta altura totalmente sedado, ligado a meia dúzia de tubos de soro e a uma máquina pavorosa que empurrava com força brutal o ar para dentro do que restava de seus pulmões.
Depois dele ter implorado, eu um dos últimos atos de consciência, para que eu o levasse para dormir em minha casa porque "sabia que estava chegando ao fim", seria de se esperar que encarar a inconsciência fosse uma tarefa um pouco menos dolorida. Mas vê-lo naquela forma de semi-cadáver tirou de mim em um único golpe qualquer resquício de força que pudesse restar em meu corpo. Na altura da última visita da noite, meu cérebro gritava histericamente para que as pernas dessem meia-volta e se afastassem dali o mais rápido possível. Mas aí uma vozinha falou no fundo da minha cabeça: "E se ESSE for o desafio da sua vida?"
De repente as coisas pareceram fazer mais sentido. Se estamos neste planeta por algum motivo, acredito piamente que ele seja CRESCER. Melhorar. Avançar. Como diz aquela música, em algum momento da vida o ser humano precisa aprender: "reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima". Meu pai, mesmo dormindo profundamente, precisava de mim. E eu não podia desistir só porque estar com ele naquela momento era a concretização dos meus mais selvagens e dolorosos pesadelos, podia? Afinal de contas, durante toda a vida ele escalou montanhas por mim. Abriu oceanos. Parou tempestades. Como eu poderia deixar o medo me afastar?
Respirei fundo. Uma vez. Duas. Três.
Adentrei a sala e me concentrei em aproveitar meu quinhão de 15 minutos para dizer suavemente em seu ouvido, enquanto segurava sua mão, o quanto ele tinha sido maravilhoso. Como ele foi perfeito em todas as horas da vida, e tinha transformado três bebezinhos -- meus irmãos e eu -- em cidadãos honestos, justos, instruídos. Acima de tudo, falei do quanto ele foi, é e sempre será amado. Que seu coração e o meu nunca iriam se separar; porque enquanto eu existisse, uma parte dele estaria sempre viva; que Deus tinha me abençoado por ter sido a menininha do papai -- e graças a isso nunca perdi uma oportunidade de mostrar o quanto ele era vital para minha existência (e sanidade).
Também fiz questão de dizer que ele estava livre para seguir seu caminho. Que se libertasse deste corpo incômodo, não se prendendo ao que ficou, e fosse alegremente para o lado dos entes queridos que já nos deixaram. Aqui, a gente daria conta do recado -- afinal de contas, fomos educados pelos melhores pais que o mundo poderia conceber.
Quando a enfermeira informou que a visita estava encerrada, beijei sua mão e sua cabeça, como sempre fiz a vida toda, e saí da sala com uma estranha sensação de alívio.
Eu não sabia que aquela seria a última vez que veria seu coração batendo.
Meu melhor amigo, meu protetor, meu conselheiro, meu mecânico, motorista e encanador, meu exemplo de vida, nos deixou hoje às 7h15 da manhã. Nesta exata hora, acordei de repente de um sono agitado e senti uma brisa de conforto e alívio passando por mim. Tenho certeza que era ele, minha alma gêmea, passando para se despedir. Não senti medo nem dor - só um grande vazio que mais tarde, suponho, será preenchido com uma enorme saudade. Mas no fundo de minha alma, tenho certeza de uma coisa: ele me perdoou por não tê-lo levado para dormir em minha casa naquele dia.
Agora, como diz meu sobrinho de quatro anos, o céu ganhou mais uma estrela. E é com a sabedoria irrepreensível de Adriana Partimpim que deixo esta homenagem a meu grande herói: JAIRO DE OLIVEIRA ANDRADE.
Saiba
Saiba: todo mundo foi neném Einstein, Freud e Platão também Hitler, Bush e Saddam Hussein Quem tem grana e quem não tem
Saiba: todo mundo teve infância Maomé já foi criança Arquimedes, Buda, Galileu e também você e eu
Saiba: todo mundo teve medo Mesmo que seja segredo Nietzsche e Simone de Beauvoir Fernandinho Beira-Mar
Saiba: todo mundo vai morrer Presidente, general ou rei Anglo-saxão ou muçulmano Todo e qualquer ser humano
Saiba: todo mundo teve pai Quem já foi e quem ainda vai Lao-Tsé, Moisés, Ramsés, Pelé Gandhi, Mike Tyson, Salomé
Saiba: todo mundo teve mãe Índios, africanos e alemães Nero, Che Guevara, Pinochet e também eu e você...
"Sei que meu olhar deve ser o de uma pessoa primitiva que se entrega toda ao mundo, primitiva como os deuses que só admitem vastamente o bem e o mal e não querem conhecer o bem enovelado como em cabelos no mal, mal que é o bom."
Clarice Lispector, Água Viva (1973).