Hoje lembrei porque sou tão arrogante, metida a sabichona e over-crítica com Deus e o mundo. Quem mais foi condicionada a ter que fazer tudo perfeito, sob pena de ouvir horas e mais horas de críticas (que, hoje em dia entendi, vêm de qualquer jeito - sempre há um motivo para se reclamar de algo).
Senhoras e senhores, eis a história da minha infância e adolescência em uma música:
Perfect Alanis Morissette
Sometimes is never quite enough Às vezes nunca é suficiente If you're flawless, then you'll win my love Se você é infalível, aí sim vai ganhar meu amor Don't forget to win first place Não esqueça de ficar em primeiro lugar Don't forget to keep that smile on your face Não esqueça de manter o sorriso no rosto
Be a good boy Seja um bom menino Try a little harder Tente com mais afinco You've got to measure up Você tem que se organizar And make me prouder E me fazer mais orgulhoso
How long before you screw it up Quanto tempo até você cagar tudo? How many times do I have to tell you to hurry up Quantas vezes eu vou ter que te dizer pra se apressar? With everything I do for you Com tudo o que eu faço por você The least you can do is keep quiet O mínimo que você pode fazer é ficar quieto
Be a good girl Seja uma boa menina You've gotta try a little harder Você tem que se esforçar mais That simply wasn't good enough Isto simplesmente não foi bom o suficiente To make us proud Pra nos fazer orgulhosos
I'll live through you Eu viverei através de você I'll make you what I never was Eu farei de você o que nunca fui If you're the best, then maybe so am I Se você for o melhor, talvez eu também o seja Compared to him compared to her Comparado a ele, comparado a ela I'm doing this for your own damn good Estou fazendo isto pelo seu maldito bem You'll make up for what I blew Você vai compensar todos os meus erros What's the problem... why are you crying Qual é o problema... porque você está chorando?
Be a good boy Seja um bom menino Push a little farther now Force um pouco os limites agora That wasn't fast enough Isto não foi rápido o suficiente To make us happy Para nos fazer felizes. We'll love you just the way you are if you're perfect Nós te amaremos do jeitinho que você é... se você for perfeita.
Fiz uma cagada de proporções continentais e concluí duas coisas:
1. Eu não posso ser humana, porque não suporto errar; 2. Preciso errar de vez em quando pra lembrar que todo o resto do mundo é humano - e por consequência parar de encher o saco do planeta Terra por qualquer mixaria.
A cada dia que passa entendo mais que um dos meus grandes problemas é a inquietação que me lasca de corpo e alma, causada pela obsessão de FAZER TUDO CERTO.
Eu não suporto ver as coisas erradas, muito menos saber que a responsabilidade é minha - por isto estou constantemente conferindo toda vírgula, todo grão de areia, todo extrato de cartão da minha vida, para me certificar de que as coisas caminham na mais perfeita ordem.
Só que o que era apenas um perfeccionismo (moderado) acabou crescendo, inchando e fagocitando qualquer senso de noção que houvesse ao redor, até que me encontro do jeito que estou agora - inquieta 24x7, cobrando perfeição de mim (e dos outros!) e deixando passar toda e qualquer oportunidade de fazer aquelas coisas intuitivas e inesperadas que, em tempos de funk, podem ser chamadas de "coisas fora do quadrado".
...
Todo este preâmbulo quer dizer apenas que ontem, depois de mais uma vez passar o dia remoendo esta realidade, ligo a televisão enquanto cozinho o jantar e dou de cara com o MTV Unplugged da Julieta Venegas - e ela, com aqueles cílios lindos e um vestido vaporoso de fazer inveja, me esfrega na cara a seguinte canção:
Ilusión Julieta Venegas com Marisa Monte
Uma vez eu tive uma ilusão E não soube o que fazer Não soube o que fazer Com ela Não soube o que fazer E ela se foi Porque eu a deixei Por que eu a deixei? Não sei Eu só sei que ela se foi
Mi corazón desde entonces La llora diario No portão Por ella no supe que hacer y se me fue Porque la deje ¿Por que la deje? No sé Solo sé que se me fue
Sei que tudo o que eu queria Deixei tudo o que eu queria Porque não me deixei tentar Vivê-la feliz
É a ilusão de que volte O que me faça feliz Faça viver
Por ella no supe que hacer Y se me fue Porque la deje ¿Por que la deje? No sé Solo sé que se me fue
Sei que tudo o que eu queria Deixei tudo o que eu queria Porque não me deixei tentar Viver-la feliz
Sei que tudo o que eu queria Deixei tudo o que eu queria Porque no me dejo Tratar de ser la feliz
Porque la deje ¿Por que la deje? No sé Solo sé que se me fue.
De uns anos para cá venho constantemente me surpreendendo com o rumo dos meus pensamentos. Talvez seja o excesso de auto-reflexão, talvez a (i)maturidade, mas o fato é que hoje mesmo (finalmente) entendi o motivo da minha curiosidade - desejo até - de presenciar o fim do mundo.
Explico-me: a cada estourar de fogos de artifício, tremor de edifício ou barulho inexplicável, começo a querer acreditar que estou presenciando o armagedom, tal qual naquele filme em que o Bruce Willis salva o mundo da destruição (e a carreira do Aerosmith do ostracismo). E nessas horas sempre tenho que conter o ímpeto de sair em desabalada carreira e refugiar-me na casa de meus pais, rezando e celebrando os últimos momentos em família em uma linda cena hollywoodiana - enquanto uma chuva de meteoros transforma o planeta num naco queijo coalho no fundo da churrasqueira.
Pois é.
O que está por trás disso é trágico e, como não poderia deixar de ser, ao mesmo tempo cômico. Acontece que entendi: eu simplesmente NÃO QUERO encarar o fato de que em alguma hora, mais cedo ou mais tarde, inevitavelmente (e todos os advérbios que o valham), meus pais não vão fazer mais parte deste plano material, e eu terei que enfrentar o desconhecido sem eles. Se for para ser privada da convivência dos meus queridos velhos, prefiro que partamos todos de uma só vez, e o planeta Terra literalmente que se exploda.
Mais que isso eu não consigo explicar.
Loucura, huh?
Como diz o título deste post, auto-análise é uma merda.
A morte também.
E tenho dito.
P.S.: E mesmo que eu fosse a Liv Tyler, e tivesse o dinheiro do Bruce Willis, e fosse casada com o Ben Affleck, o veredicto seria o mesmo: que venha o fim do mundo!
"Sei que meu olhar deve ser o de uma pessoa primitiva que se entrega toda ao mundo, primitiva como os deuses que só admitem vastamente o bem e o mal e não querem conhecer o bem enovelado como em cabelos no mal, mal que é o bom."
Clarice Lispector, Água Viva (1973).